Existem tantas mágoas espalhadas pelo mundo, tanta dor, tanto rancor, que ao abrir o jornal do dia, mal lembramos que de fato existe coisas boas que acontecem ao nosso redor, seja um senhor de idade que não perdeu a forma do cavalheirismo em meio o mundo frio que se tornou nos dias de hoje e com um simples gesto em um pequeno café em uma simpática praça numa bela manhã de sol, locais e turistas se misturavam em meio aos pássaros que faziam uma bela dança em meio das luzes do dia, ele com muito esforço fisíco, lembrava de sua juventude, da facilidade que era realizar aquele simples gesto de levantar de sua cadeira, andar na direção de um vendedor ambulante que chegava com lindas, grandes, perfumosas e recém colhidas rosas campestres, ele com muito esforço comprou a mais linda que havia no estande do ambulante, que com um largo sorriso fez um belo arranjo para que o senhor fizesse a tão singela surpresa para sua jovem senhora que aguardava ansiosamente na mesa enquanto degustava um lindo e delicioso cappuccino.
O senhor abriu um sorriso para o jovem ambulante, certo de que seu ato seria rotineiro para sua memória, mas especial num mundo que isso não acontece mais, o senhor pagou o ambulante, que faz parte da nova remessa de personalidades da humanidade, não exitou em se aproveitar do senhor ,que com muita bondade e carinho iria realizar um feito de coração, e cobrou-lhe o dobro do preço, mas tamanha felicidade do senhor não deixou com que ele visse tamanho golpe. Feito o ato da compra, o senhor escondeu com muito esforço a bela rosa atrás de corpo com uma mão, enquanto a outra ajudava-o a andar com sua bengala de madeira clara e delicada, ao chegar na mesa onde se encontrava sua amada esposa, que lhe olhava com um teor de reprovação pela demora e pelo esforço, ao começar a repreende-lo, ele abriu um largo sorriso e lhe revelou a bela rosa que foi automaticamente iluminada por um raio forte de sol da manhã, tornando a cena romântica, bela, singela. A senhora perdeu as palavras, o nervosismo devido ao esforço de seu marido sumiu como um pássaro que voa sem rumo e se perde em meio aos prédios e árvores, seus olhos encheram de lágrimas de emoção, de felicidade, abriu um sorriso amável, pegou a rosa das frágeis mãos do marido, fechou os olhos, as lágrimas rolaram pela face já conservada, segurou a rosa com ambas as mãos e profundamente inalou o cheiro daquela fresca e delicada rosa, após um momento de puro êxtase, ela abriu os olhos e viu o marido com um ar superior, de um soldado que cumpriu sua tarefa com méritos e se sentia absurdamente orgulhoso e com a voz fraca de emoção ela lhe disse: "Após 45 anos, você ainda me surpreende e eu ainda fico com o corpo tremendo como uma jovem adolescente quando digo, quando digo que eu te amo."
A cena foi acompanhada por diversos clientes e funcionários do café, entre eles, um jovem analisou a cena com maior empenho, em sua mesa, um café grande, desses industrializados, um cinzeiro cheio com um cigarro aceso em sua borda, um jornal do dia, já amassado com a página de politicas aberta com um grande destaque que dizia: "CORRUPÇÃO DO DIA-A-DIA", dois celulares, um óculos de sol e chaves de um carro. O puro retrato de uma geração perdida, uma geração que o que não é industrializado, é artificial, nem sentimentos singelos mais existem, em tempos que o termo "Eu Te Amo" se tornou obsoleto, se tornou gíria popular e não possui mais o teor que originalmente lhe foi concebido.
O jovem depois de assistir aquela cena, olhou com um ar de reprovação para sua mesa, seus pertences, apagou o cigarro, atirou o grande copo de café na primeira lata que viu pela frente, jogou celulares e chaves no bolso de seu terno, o jornal ele deixou na mesa, não teve coragem de encostar naquela sujeira toda novamente, e decidiu que era hora de mudar, era o momento de alterar o futuro, criar o seu final alternativo, ele se sentiu na necessidade de ser a excessão dessa geração e quis voltar as raizes, quis se sentir aquele senhor, quis escutar aquela senhora, quis sentir o que aquele casal sentia.
Sentiu vontade de visitar sua mãe, abraçar sua namorada e sentir compaixão verdadeira, não produzida, mas real. Sem pensar duas vezes, comprou duas dúzias daquelas rosas do ambulante pelo preço correto, afinal ele conhecia o tipo, seguiu até seu carro mas pensou uma segunda vez e se decidiu em caminhar, observar as pessoas, a cidade, os movimentos. Após alguns minutos de caminhada, chegou na casa de sua namorada, que abriu a porta lendo jornal, dando-lhe um beijo de recepção, questionou por que não estava no trabalho, afinal estava atrasado, tinha problemas para resolver no banco e...e ele segurou a moça pela cintura, deitou-a no sofá e abriu um sorriso similar ao do senhor no café, olhou dentro de seus olhos que encaravam de volta sem entender o que acontecia naquele instante e lhe disse pausadamente, entre as váriadas respirações e batimentos de seu coração, sentiu o que foi recitado pela senhora no café, seu corpo inteiro tremeu e ele finalmente disse: "Eu, eu te amo." Ela em primeiro minuto ficou surpresa, sem entender muita coisa, mas ele emanava tamanho sentimento que ela se sentiu mole, ele sentiu isso, e lhe entregou uma das dúzias adquiridas com o ambulante e repetiu novamente, "Eu te amo", ela perdeu o chão, a respiração, os problemas e apenas conseguiu dizer que também lhe amava, deu-lhe o beijo mais carinhoso que o casal havia trocado até hoje, pareceu sincero e sereno. Após juras de amor, eles se despediu, anunciou que voltava pela noite e seguiu rumando a casa de sua mãe com a dúzia de rosas restante.
Admitiu que apesar de tudo, não tinha saúde para caminhar até sua mãe, do outro lado da cidade, chamou um táxi e cerca de 30 minutos depois, ele chegou naquele simpático conjunto de prédios que ele tanto lembrava dos dias de sua inocente infância, desligou os celulares, entrou no prédio com a chave reserva que sempre deixava no fundo do bolso de seu velho jeans e bateu na porta de sua mãe, que lhe recebeu com um largo e surpreso sorriso, abraçou, beijou e questionou, assim como a namorada, o por que da visita, trabalho, problemas, banco e etc, ele só soube dizer: "Só quis passar um tempo no colo da minha mãe" e lhe entregou as rosas, a jovem senhora começou a chorar compulsivamente de felicidade, não esperava tal gesto do filho numa manhã de segunda-feira, ela se controlou, agradeceu, colocou as rosas num belo vaso de cristal que não usava em séculos, correu para o sofá e se atirou em uma das extremidades, com um sorriso de pura felicidade bateu as mãos em seu colo e disse: "O colo de uma mãe sempre está pronto para um filho!". Ele sorriu, singelamente, pela terceira vez no dia, primeiro com o casal do café, depois com sua amada e agora com sua mãe e como uma criança arteira, se jogou no sofá em um pulo só, os dois riram por longos minutos disso e passaram o dia inteiro, ali, simples, carinhosos e unidos.
Sim, não podemos criar um novo começo, mas em qualquer segundo, podemos mudar todo o meio, o final e até mesmo, as memórias.