Paris, 15 de Abril de 2011.
"Olho pela janela desse simpático hotel de bairro, não sei pronunciar o nome e nem mesmo sei em que bairro me encontro, desci na estação central, caminhei e chamei um taxi. Dizem que se você souber falar inglês, você pode conquistar o mundo. Fato, desde que comecei essa jornada maluca que começou em janeiro, não passei fome por saber falar inglês, mas como nem tudo é perfeito, as vezes, não saber a língua local pode te levar até alguns problemas desagradáveis, exemplo? Noite na delegacia por ter se enganado ao solicitar um café em uma charmosa praça em uma simpática cidade na Espanha, e você se pergunta, como isso foi possível? Aquela charmosa praça é o centro de distribuição de drogas no país. Cair na estrada com uma mochila, um computador e um smartphone pode ser inspirador, mas esquecer da vida e não consultar os mapas e os guias que passei meses recolhendo e adicionando ao celular, pode ser burrice.
Encerro essa breve passagem e retorno ao meu desafio, escrever."
Uma idéia de uma tarde pode resultar em tantas coisas, pobre escritor, não imaginou isso no começo, foi dominado ferozmente pelo impulso de correr pelo mundo, com o simples objetivo de escrever um livro e publicá-lo.
Entre meios, aquele jovem escritor tem um passado curioso, atraente em certos pontos e detestáveis em outros, mas quem não tem sua pitada de tudo no passado?.
Dizem que o jovem escritor nunca admirou suas obras, nunca as leu e tremia da cabeça aos pés quando alguém, não importava quem, tivesse a chance de ler algo de sua autoria. Ao longo do tempo, ele confessava aos poucos nunca ter revisado um texto, nunca tem lido um texto e todas as escritas em papel, dormiam escondidas em um lugar que só ele conhece, o medo de revelação é avassalador, mas mesmo assim, ele mantinha um blog na internet, onde entre uma crise e outra, ele despejava um capitulo de algo, um verso daquilo e etc.
A pressão daqueles que o conheciam por seus textos era imensa, de qualquer forma, aquele material precisava ser publicado, aquilo deveria obrigatoriamente atingir todos os cantos, daqueles que gostam de boa leitura, e na opinião dele, nunca.
A família sempre achou seus textos dentro da expectativa, dentro dos padrões familiares, na escola, as provas de redação eram as mais aguardadas, o seu instinto para uma escrita é a base dos bons escritores, o sentimento, o momento, o fundo musical e o fato mental. Mas ele sempre se achou inconstante, mas nunca teve conhecimento de uma frase completa de sua escrita, poucos sabem, mas existem diversos materiais de sua autoria escondidos em um local secreto, entre eles, scripts para cinema e curta-metragem, poesias, monólogos, contos, resenhas, peças de teatro, simples frases, simples pensamentos derrubados e até mesmo uma meia dúzia de livros com diversos teores.
Mas ao escrever um texto num certo dia chuvoso, úmido, gostoso de se apreciar, com as nuvens alternando entre o cinza, o preto, o branco, o gelo, os pássaros fazem a sua dança entre as pesadas e bem recebidas gotas que molham e desenham um negro asfalto pela cidade, ele se deu conta que estava em um período em sua vida, onde decidir o próximo passo merecia cuidado e atenção redobrada, mas era hora de fazer alguma coisa.
Ele resistiu firmemente em ler qualquer coisa de sua autoria, mas passa tardes e noite rolando entre seus textos e apenas olhando o nome de cada um, e apesar de nunca ter lido, só de olhar o nome, sabe o teor, a história por trás, o sentimento e a ocasião em que foi escrito.
A decisão foi tomada, escrever era o objetivo, publicar, vender, mostrar? Era um processo em andamento, mas escrever era a vontade, escrever pelo mundo, escrever pelas experiências, transformar os minutos vividos em páginas e mais páginas. Mas já foi o tempo em que um escritor poderia apenas viver de palavras, dar-se a liberdade de tirar um ano de sua vida, para ser um vagabundo completo, pelo mundo.
Ele começou com os sonhos em sua mente de como poderia ser uma experiência sobre tamanha jornada, escrevia cada pensamento, relatava cada sonho com os mínimos detalhes, mas não passava de sonhos, como toda a sua vida foi, sonhos.
Já beirando a desistência e botando o pé no chão, lembrando de como é a vida real, ele relatou em seu blog:
"Caminhava com certa insanidade na face molhada, as gotas minerais entravam em colisão com o suor que brotava dos poros e se tornavam uma única gota, a adrenalina subia calmamente entre os espaços de suas veias, o sangue afinado dividindo o espaço de sua casa com correntes de um liquido alcoólico, que os faziam trabalhar em dobro, em velocidade acelerada.
Os turbilhões e turbilhões de sentimentos resolveram se exaltar naquela seca e gélida noite, a trilha sonora já não faziam mais efeitos sobre a mente dominada por pensamentos, as velas postas para transformar aquela noite em uma noite pacifica, acompanhavam os movimentos brutais daquela figura pálida, magra, com profundas olheiras abaixo de seus olhos. A segunda garrafa de vinho já se encontrava caída em um canto, vazia, inerte ao momento, a taça, quebrada ao outro extremo, sua mão sangrava por baixo da camiseta branca que servia de gaze para estancar o sangue e ao mesmo tempo confortava as lágrimas que saindo de um olhar morto e intenso, como de um corpo já abatido junto ao chão, em que o olhar é profundamente morto, mas intenso em sua ultima direção.
Ele se sentia mentalmente cansado daquela pressão que tinha se colocado, em um breve momento de surto, abdicou-se de todo trabalho, rascunhos, matéria prima e tudo que viu pela frente em sua simples e fraca mesa de trabalho, buscou ferozmente a lata de lixo aos fundos da casa, jogou tudo para dentro daquele abismo escuro que era a lixeira, um grande recipiente de metal enferrujado, que a iluminação das velas transformava em um abismo sem final, não se enxergava o fundo daquele recipiente. Juntou um punhado de produtos de limpeza, embebedando todo aquele material, agarrou firmemente uma das velas próximas e parou diante daquela cena, olhou em volta, sentiu o corpo recuar em suas ações, suas pernas amoleceram, suas lágrimas já acumuladas em seu rosto e olhos, transformavam qualquer visão em simples borrões, coloridos, intensos, confusos. E no movimento que fez com o corpo para se sentar no chão de madeira encarpetada de sua sala, soltou a vela de sua mão, dentro do abismo.
Se recolheu em um canto do cômodo e esperou queimar, lentamente, todo seu trabalho."
Pela manhã, se limitou em dizer que o projeto que tanto sonhava naqueles tempos, estava decretado, estava sacramentado ao fim.
Ele passou dois meses desaparecido, não havia noticias sobre o jovem escritor desde aquele episódio, não atendia as ligações, não aparecia mais nas redes sociais, não respondia mensagens e até mesmo a família não sabia mais do paradeiro dele.
Certa manhã, ele despertou de seu sono e ligou o celular, coisa que não fazia já havia um longo tempo, naquele quarto escuro e misterioso, que foi rapidamente engolido pela claridade do aparelho que ele encarava com certa curiosidade de seu ato. Por um momento achou que estava cometendo um erro e derrubou o aparelho na outra extremidade da cama bagunçada, entre edredons e lençóis e caiu no sono novamente. Pouco tempo depois foi desperto pelo toque do celular, que ele seguiu prontamente na direção de desligar, porém, um número desconhecido apeteceu sua curiosidade e o fez deslizar o dedo do botão vermelho para o verde e atendeu a ligação.
O telefonema durou cerca de duas horas, ele já de pé, ligando sua cafeteira e aquecendo o croissant da semana passada, estava viajando entre as horas da ligação daquele misterioso homem, que tinha um único objetivo em ligar, dizer que fazia dois meses que tentava entrar em contato e era um remanescente da boa leitura e estava disposto em resgatar aquele talento supostamente perdido e tinha o convite de patrocinar sua viagem pelo mundo em busca de uma boa escrita e lhe daria o tempo que fosse preciso para se decidir em aceitar o convite.
Demorou mais um mês para ligar novamente seu celular e ligar para sua mãe e dizer que estava vivo e escutar poucas e boas sobre seu desaparecimento. Contou-lhe a estranha ligação que havia recebido no mês anterior e que algo dizia-lhe para aceitar o convite, o que prontamente sua mãe concordou, mas sempre deixando o alerta ligado, afinal, boas almas no século 21, é algo que dificilmente existe.
Hoje ele se encontra em Paris, após três meses de viagem, já é seu quarto país e seu livro, bom, seu livro ainda está preso na página 13, mas algo lhe diz que ao fim de sua jornada de um ano, ele terá material o suficiente para dois livros. A única condição do misterioso homem, era que finalmente ele publicasse sua literatura e deixasse o mundo decidir se era válido ou não e que com o tempo, o jovem escritor acabaria lendo sua obra e descobrindo que não perdeu tempo, apenas adquiriu experiência.
Eu acredito que depois que o primeiro livro nasce, perdemos o medo dos proximos, aprendemos que não dói. Vemos que não é tão monstro. E se escrever é tão natural para nós, pq não unir o útil ao agradavel?? Assim espero que um dia a gente consiga quebrar a barreira. Eu, voce e o cara do texto. Beijos.
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